quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O amor da flor de cactus.

Uma linha te partindo crucialmente Inês,

Bem ao meio.

É uma linha de amor, Inês.

Não de dor.

Mas te parte, te corta, e fere.

Ao meio Inês, bem ao meio.

Inês

Sozinha

Amor

Paixão

Uniram as mãos

E partiram

Batendo o portão.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Espiral.


Dentro de um sonho
que mora dentro de um abraço
onde pairam tantas almas
um sopro de tantas vozes
transitam idéias.

Transcendem, metafísicas azuladas
de dentro de um abraço
de dentro de um sonho
feito espiral.

Preparar o plantio
do coração um ventre puro
do coração uma terra fértil
para receber luz
para dar à luz
para que seja luz!

De onde se parte
se chega
reencontro
em si mesmo

energia inundada
de alma e matéria
onde o tempo não passa
e não passa de convenção.

De dentro de um abraço
de dentro de um sonho
em espiral:
um sorriso de engolir luas cheias.

sábado, 30 de outubro de 2010

Me quedo contigo.

nos quedamos em silêncio como acontecera outrora,
mas pela primeira vez tal silêncio não me constrangeu.
aquele silêncio que resulta da mistura do ter tanto que dizer
que se prefere calar.
aquele silêncio que diz além das palavras, e aquém de um abraço.
tenho dúvidas se vivo ou pairo,
plano suavemente sobre mim mesma,
me observo de perto, mas de fora.
e dentro de mim, só há o teu encontro,
parte diluida do que sou.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Vientre estrellado.

olhos abertos
janela do ego
esvaziar-se de si
cessar o eu
olhos fechados
a alma devora
o cheiro de mar
que insiste, e baila
enquanto a noite dorme
em ventre estrelado.

domingo, 26 de setembro de 2010

Tua.

Nego- me. Nego-me estar em qualquer lugar que não seja aquela sala borrada pela lua branca. Recuso a materialidade presente. Quero me prender naqueles exatos momentos... Quero teus braços ao redor do meu corpo me apertando contra o teu... sentir teu coração bater bem perto do meu...te fazer carinhos com tanta força que eles possam beirar uma doce agressividade. Quero por tudo, permanecer naquele encontro. Trocaria qualquer presente e futuro pra me manter presa naquele recente passado. Quando vou embora, parece que aquilo tudo só aconteceu dentro de mim. A lua nos dá a benção, pressas horas nunca se findarem. Um turbilhão de sensações aquém e além dos racionais limites da matéria, e eu nem sei dizer qual delas mais me atrai. Se a sublime alma de quem me apaixono, ou se o calor rasgante do qual sou totalmente dependente feito viciada., tua pele! Enquanto eu to aqui contando, eu vou perdendo um pouquinho pro papel, por isso hesitei bastante em tecer tais palavras...mais uma vez fico entre ser amante fiel do que se diz, entre a barreira admirável do que não pode ser dito. E eu vos digo: aqui não há sobejo do que sinto. Aqui não há réstia desse sentimento. E eu queria relembrar sensitivamente cada momento presente, passado recente, presente constante em mim. Cada pedaço teu, cada timbre da tua voz em cada exata palavra, o pulsar da tua respiração em cada olhar lançando sobre mim, imersa na tua alma!
Nenhum amor que se entregue aos teus braços, nenhuma que se ponha a seguir materialmente contigo aonde quer que vás, estará tão presente quanto eu. Eu sempre estarei mais. Tua poesia. Tua mulher. Tua flor. Quero-te em pólos unidos e opostos, quero-te em yin e yang. Te amo com doçura e com a raiva de te amar ser mais forte do que quer que seja que eu possa sentir, de não poder resistir. De não querer resistir. Nada é meu, e eu me recuso a aceitar a materialidade que não seja aquele passado presente constante em mim. Mas eu tenho esse amor, que me faz sentir imortal diante de todos os outros seres terrenos e extraterrenos. É tudo que tenho, e nada me tira o que de mais bonito eu levo comigo. Dor? amor e dor estão sempre de mãos dadas, arriscaria tudo de novo com paixão. Se te vás, de mim a dor é inevitável. Mas também com ela eu já aprendi a lidar...arcar com as conseqüências que me cabem ao que me proponho. Talvez a saudade seja o preço que eu tenha que pagar por não estar pronta em partir pro mundo contigo. Mas saber que há ainda uma vida inteira, e algumas outras pela frente...e que com essa força que nos une, o encontro acontecerá sempre e mais uma vez, isso pode parecer vão ou frívolo, mas me conforta no desespero e em último caso. Me levas a pólos opostos que são um só, pela unidade do universo. Contigo eu me sinto entre os opostos que fazem partem de um todo Taoísta. Levas-me do ciúme irracional até a mais meiga compersão. Me levas a flutuar, só de me dar o que nunca te pedi, e que eu nunca vou perder. Negue, parta, suma. Não interessa. Não dá pra ser diferente. Teu amor pagou minha existência. E por nada eu abriria mão disso. Com tantos possíveis encontros no mundo, logo eu e você, né? As vezes parece um presente-castigo. Mas um presente que eu não trocaria por temer castigo nenhum. No fim das contas sabemos que nada além importa. que nosso encontro é surreal e nada mais tem seu lugar. Abro minhas portas e janelas, abro toda minha pele às tuas mãos. Espero-te, te recebo, te deixo partir, não te peço nada, quero muito, me contento com bem pouco, porque meu desejo não tem fim, e por não ter fim não tem pressa,não tem pressa porque nunca será saciado... não faz parte dos meus anseios, porque numa freqüência de cachoeira, sempre se renova. Te encontro em tudo que me encanta, em tudo que é bonito, na grama verde, no pôr do sol, filhos, o mar, todas as luas cheias me remetem à você. Tua freqüência fez nascer: poeta. Aprendi a apreciar palavras com fervor e silêncio com contemplação. Homem e mulher, fervor quente de paixão, freqüência tênue de amor antigo. És incansavelmente o que me inspira, e com todos esses sentimentos aos quais tua luz me propaga...eu vou escrevendo pela vida inteira, numa tentativa que já começa derrotada, de expressar o que explode dentro de mim. De toda forma, é esse sentimento que me faz sentir especial e sobre-saliente entre qualquer pessoa. Faz-me sorrir por dentro, abro-me numa flor feito sorriso. Porque o mundo iria ter importância? nada mais terá. Depois que eu tiver aquela noite comigo todos os dias de minha vida. Seja qual for a vida, seja o que for viver.
Porque se ver Bethânia cantar não me fizesse voltar a escrever...nada mais faria! =))))

domingo, 1 de agosto de 2010

Constatação.

Desejo intenso e pleno de liberdade tem tudo a ver com solidão. Mas isso não quer dizer que eu tenha medo. A liberdade te desprende gradativamente do apego execessivo, e te leva ao encontro contigo. Não há liberdade sem autoconhecimento, liberdade sem autoconhecimento não é caminho, é perder-se entre uma imensidão de mundos. Livre é amar sem tantas amarras, e deixar ir sem tanto dessassossego, serenidade e entrega ao presente, e ao fluxo natural natural de tudo.
É, tô constatando, ainda.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Diluir e partir.

Mato seco, teto enxuto, terra árida, chão partido. Olhos secos, rosto enxuto, pele árida, coração intacto. Era assim onde Lia fazia sua morada. Onde o sol desperta mais cedo e o céu é bem mais bordado de estrelas. A poeira é parte que integra a rotina.
Mais à frente, já bem perto da sua casa, havia uma rocha gigante, dessas bem grandes mesmo que não se vê em qualquer lugar, parecia mais uma rocha cuspida de outro plano dentro do universo. A rocha gigante, a preferida de Lia, era pra ela homem. Desde criança ela a chamava de Rocha Vladimir. Rocha Vladimir ficava num dos pontos de mais altitude de onde Lia morava, e tinha um formato geograficamente divino e maravilhoso. Vladimir acumulava água das chuvas, virando um imenso e lindo lago aos olhos dela, e as águas...águas sempre encherem os olhos de Lia: com alegria, quando chovia, e de dor quando perdiam-se pelo caminho. Muito impressionada ela ficou quando ouviu os mais velhos comentarem sobre o homem ter ‘pisado na lua’, e achou uma inutilidade sem tamanho quando todos foram até a casa do prefeito assistir tal cena na TV. Na sua cabeça, era tão claro que não só o homem pisou, quanto habita, não só a lua, quanto o universo em sua forma plena.
Não tarde, e Lia, já mulher, terráquea que era, ou é, ou será, ou nunca foi....somos? enfim, não tardou para que Lia viesse a ter suas primeiras experiências extraterrenas por assim dizer, e tudo tinha a ver com Vladimir. Sempre que passava próxima a rocha tinha sensações extremamente diferentes, sentia uma espécie de calor na nuca, olhos, orelhas, suas mãos pareciam carregar duas bolas de fogo. Tentava ignorar tais sensações e continuava a caminhar. Suas tias diziam ‘menina, isso é coisa do demo!’.
Tempos depois, num dia de muito calor, Lia passando novamente junto à rocha, mais uma vez em meio a essa obscura sensação, começou a ventar sopros fortes em suas pestanas, e com isso, não resistindo, caminhou até Vladimir, e sentou-se contemplando aquele verdadeiro espelho d’água. Em volta, toda ramagem era flamejante, o sol desbotava sua luz nas plantas outrora verdes, agora não, agora tudo é de um tom alaranjado cruel. Ficava pensando: ‘como é que a terra é redonda e a gente não cai? como a água fica ali quietinha? sem escorrer?’ Lhe disseram que era a tal da lei da gravidade, a gravidez cujo feto é o ser humano. Mas Lia nunca compreendeu muito bem isso. Sentada na rocha, gostava de olhar pro céu levantando e descendo devargazinho os olhos, invertendo a visão: vendo o céu na água e a água no céu, até ficar sem saber onde era céu e onde era chão. Um verdadeiro espelho cristalino. Sentia algo de muito magnético naquela pedra e quando cheia d’água... era mais ainda...era como uma espécie de destino implacável que unisse Lia à Vladimir, e ela não podia fugir disso.
Muitas trocas intensas ocorreram em poucos intervalos de tempo. Intensas trocas magnéticas até a linha que limita a matéria. Nisso, Lia conhece Ernesto. Um moço lindo, inteligente, adorava ler poesias na janela de sua amada...perfeito?? O único problema é que Ernesto era uma rapaz muito realista, e olhe que eu nem vou discutir aqui que realidade é questão de ponto de vista porque eu já me permiti muita prolixidade. Em conseqüência, sempre que Lia sentia um embaraço com toda essa história da rocha e de suas experiências em meio aos limites da matéria, ele se colocava muito cético, chegando o dia em que cansou e disse: ‘minha filha, você é louca’ e foi-se. Assim aconteceu sucessivamente com todos os seus namorados, todos a taxavam por ‘Lia, a louca da pedra’. A cidade INTEIRA a via com péssimos olhos. O prefeito chegou a declarar que iria triturar Vladimir e transformar em paralelepípedo, coisa que ela nem sabia o que era. Pois ela foi até a casa dele, e disse: ‘se fizer isso, te quebro a cabeça ao meio’. E ficou por isso mesmo, porque ‘com doido não se brinca’.
Numa noite fria, Lia acordou-se de madrugada com o vento que abrira sua janela, sacudindo bem forte a cortina, voltando a sentir aquele calor na nuca, mãos e orelhas. Não conseguiu mais dormir, nem fechar a janela por não poder conter a força do vento. A plantação toda estava em diagonal, até as nuvens o sopro do vento botou pra correr. Parecia até que o céu ia se abrir. Pulou sua janela e quase planando, chegou até a rocha para mais uma intensa troca de carmas positivos. Suas irmãs sonhavam em casar e ter filhos. Lia a louca de pedra que era, buscava o além-mundo, ela era o além-mundo.
Deitou-se sobre a rocha, seu vestidinho florido, pés delicados pousados em repouso, exalando um aroma indescritível. A água da pedra estava secando, e a madrugada fria ia dando espaço pro sol partir o solo. Um processo sereno, inerte, que fez viável sua partida. Desmaterializou-se Lia, desmaterializou-se a rocha, e a antena parabólica do prefeito. Lia nunca contestou seu destino de unir-se a Vladimir, buscava a plenitude da entrega além da sua existência terrena. Deitada, olhos fechados, cabelos em meio a frieza do sereno da madrugada...e o calor dissolvendo gradativamente...primeiro cabelos, pêlos, pele, poros, e alma. Ficando de Lia apenas o algodão do seu vestido.