sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Primavera Visceral

Do lado esquerdo deste peito
entre o seio transverso do pericárdio
e o arco da aorta
em movimentos involuntários
explodem primaveras viscerais

Bem aqui do lado esquerdo deste feito
quase que por fisiológica necessidade
sentimentos e palavras percorrem dentre os vasos
onde de dentro transbordam
e flutuam em espirais

Aqui dentro neste entranhado peito
mora uma poesia que já nasce anarquista: fêmea, divina, e marginal!
Entre estas veias correm sem qualquer limiar ou pudor
algo intenso místico e profundo sem qualquer governo
aqui onde explodem sentimentos e palavras venerais

Nas cavidades anatômicas deste pleito
nessas estranhas entranhas algo soa tão sereno
silenciar minhas palavras é tomar do meu próprio veneno:
é morrer aprisionando o que já nasce livre e pleno
aqui onde explodem primaveras viscerais!

(quarta-feira, 13 de julho de 2016)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A fuga e o deleite

Ela pensava:
Quem és tu?
De onde vens e pra onde vais?
Quais teus devaneios e desejos?
Como podes me pedir tão pouco
Como ao passo que me desconheces
Podes penetrar tão profundo em meu mundo?


A fuga,
O olhar que se desencontra propositalmente
Os cabelos que emolduram um olhar que se esconde
Pelo receio da descoberta
Da doce descoberta  do despertar
Que imprime uma verdade que nada pede,
Mas que tudo entrega


É  noite amarelo-âmbar nas sete colinas
É  noite fria e rouge carmim
Mas é a noite que todos os deuses e deusas
se põe ao acaso do encontro
Aflitos, consoladores e não menos sedutores


Sabia que seus olhos falavam
Sabia que ele lia olhares
E por tal motivo o jogo fugidio e ébrio se fazia
Pois sabia que quem lesse seus olhos
Em sua alma penetraria


E por isso fugia
Fugia pois ele lia
E porque o próprio jogo de fuga lhe satisfazia
Pois a revelação seria
Um golpe de faca em si mesma
tornando sua poesia moeda sem valor
sem mistério e sem ardor.



terça-feira, 31 de maio de 2016

Profanas Divindades

Só para que eu escreva
e me diga aqui muito honrosamente poeta
um mundo ao meu redor se move

Só para que eu tenha a ousadia de escrever
e ainda mais ousada seja em chamar de poesia
um véu luminoso de beleza se estira sobre o caos

Só pra que eu possa me ressignificar poeta
me pus a mistificar incongruências
no fluxo da contramão
e a contemplar divindades urbanas

Exclusivamente para que eu me ponha poeta
paixões a mim foram designadas
só para o voluptuoso deleite da rima e da métrica,
e sobretudo da ausência delas

Só para que eu, pretensiosamente me diga poeta
madrugadas ébrias me foram desenhadas
doces matérias primas para que algumas palavras
possam deitar-se libidinosamente sobre o papel.


Causa e efeito

Existo e insisto em querer fazer e ser poesia.
Na beira mar da maresia,
na linha tênue dos trópicos.

Eu existo e não mais do que por insistência,
e por que não dizer por teimosia,
inspiro e tusso poesia.

Piso leve na areia,
que insiste em naufragar meus pés.
Piso e insisto em naufragar.
Piso e insisto em não ser diferente
pois de outro modo não poderia ser.

De modo errante insisto e existo
pois de outro modo apenas sobreviveria,
apenso a um corpo de perene fluidez.
E com permanente nitidez, revelo:
de que me valeria viver se não fosse pra ser poesia?

Eu que não nasci sem causa
e só por insistência
minha existência de outro modo não seria:
é a de me cobrir  com as vestes do mundo,
levantar a bandeira do amor em punho
e resvalar de poesia.

Só por insistência existo.
E existo não  pra fazer,
mas pra sentir e ser poesia.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Suave coisa nenhuma

Quantos copos
Quantos corpos
Nesta mesa repousaram?

Quantas dores
Dissabores
e amenidades
Transitaram?

Futebol,
Política
Religião
Ou a dor jubilosa de uma paixão?

Sangria, desejo
Aguardente, ou não
Suor: o manto volátil do prazer
E o o gozo: a redenção do tesão

Quantos corpos
Quantos copos
Nesta mesa repousaram?

Quantos dela se apossaram
e fizeram seus leitos
de febris de devaneios
Onde realidades mornas se findaram



segunda-feira, 2 de maio de 2016

Súbita desordem e caos

Um frio e o plástico gosto de sangue que escorre pela garganta.
O mundo ao redor é o mesmo,
mas aqui dentro, aqui dentro esse ruído ressoa e não estanca.
O mundo ao redor é o mesmo,
mas o súbito mudo de dois segundos
cuja rota fora alterada por destino ou ocasião
se perpetuará além do que há e sobretudo daquilo que nunca,
jamais
será

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Olinda e Omar I

Olinda é fêmea, que namora o mar.
Se a paixão acabar, prometo por amor ficar.

Se do amor se findar a poesia, 
fico por zelo, só por garantia.

Desde que em nós permaneça
esse fogo doido que flameja,
Esse beijo que sobeja!